segunda-feira, 24 de junho de 2013

O barulho nostálgico da geladeira trazia a tona a noite em que haviam três pessoas sentadas na cozinha, abraçadas pelas calmas trevas noturnas daquela noite. Entorpecidos, haviam passado a madrugada anterior àquela madrugada, da mesma noite, na rua, bebericando copos alheios, e amando garrafas compradas. Divagando prosas nos ouvidos de outrem, para um momento mínimo como amantes, ou talvez uma eternidade que encontraria seu fim em algum outro dia.

Bom, não conseguiram nada disso, e foram dormir.

Chegando lá, ao invés de organizarem as camas para descansarem na profundidade criada das benditas abençoadas, decidiram comer e jogar conversa fora na cozinha. Alguns biscoitos, um café recém feito, xícaras meio cheias faziam companhia as bitucas e cinzas de cigarros que dois deles tragavam. Todos comiam e tagarelavam, como se a cada biscoito ingerido uma nova conversa precisasse sair para dar espaço dentro do corpo. Até que o barulho da geladeira os deu a ideia: Apagaram as luzes e, mais que satisfeitos, continuaram a conversar, deixando as palavras serem guiadas pela noite que decidira amamentá-los com seu sumo polêmico. Um pouco mais de tempo, e calaram-se. A ideia era que apenas a geladeira poderia pronunciar-se, e era sempre com o mesmo tom. O tom vibrante, oscilatório e perdido da geladeira. Como alguém preste a regurgitar, hesitando mais rápido que o saudável e o corpo aguentaria.
Até a tossida. Após o que pareceram horas, uma tossida seca, desesperada mas brincalhona inundou o aposento e os ouvidos dos três com vida, caos e desordem. Um deles engasgou-se em sabe-se-lá-o-que, e então, cansados, cedem. Vão dormir.

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