Amanhoje eu e minha família nos mudamos. Mudança meio que repentina, com os contratos resolvidos rapidamente, graças a nomes conhecidos. E hoje eu abri meu armário cheio de coisas. Tudo que eu tenho, fisicamente, esta guardado lá. Coisas da casa passada, coisas de duas casas passadas, até de uma vida passada. Conforme eu ia esvaziando o armário, ia preenchendo o chão de coisas antigas, e a mente de memórias: Aqueles mangas que eu lia na varanda, alguns em especial em que eu ri, outros em que eu chorei. Os livros antigos, alguns lidos a contra-gosto, mas que logo tornarão-se amados para mim ou, pelo menos, experiências encantadoras. Lembrei das partidas de dominó a tarde, das correrias no corredor, nas ruas, das risadas escalafobéticas. Dos dias em que eu dizia que eram os melhores da vida.
Então, uma casa depois, lembrei da primeira garota. Do primeiro show. Da primeira cerveja. Do primeiro choque causado por um jogo, da primeira vez que voltei de ônibus e fiz alguma loucura num ônibus, da amiga que mostrou-me o mundo, e a ela e ao mundo sou grato.
E de volta ao armário. Vazio. Desmemorias, apenas, o total inverso do chão, repleto de paixão, fogo, sonho, e atitude. Um eu que já foi. Um eu que morreu. Descrente sou eu, por agora, e precisei olhá-lo de novo. No vazio, para além dele, havia algo. Estiquei a mão para alcançá-lo e, quando o ouvido ousou destruir o vazio pacato, ouviu um sussurro:
"Sou eu. Adeus, e boa sorte".
Adeus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário