segunda-feira, 29 de julho de 2013

A música voraz.

A música queria sair, empurrando uma pressão aos meus ouvidos, impossível de manter-se presa e distraída pelos fones de ouvido. Os pensamentos pareciam um engarrafamento tardio regado a doses de lsd e absinto numa avenida de postes seculares e piscantes, caóticos pronunciando seu encanto para o mundo e além. Ossos e membros aparentavam estar sendo violados pelos apelos das notas, dos tempos, do ritmo desigual do saxofone estranhamente libidinoso da obra sendo ouvida. Tirei o conector do fone de ouvido, murmurando um "bom trabalho" para o pobre coitado, já que segurar aquela canção parecia um trabalho muito pior que árduo, chegando a ser lacerante: fones não possuem fluídos dentro de si mas, caso possuíssem, provavelmente a bancada, o chão e a parede branca manchada pelos infiltrações de água no meu quarto estariam todos tingidos anarquicamente por ele. O som espalhou-se pelo quarto como um monstro sedento, como uma existência voraz, com fome de silêncio e espaço. Sai do quarto para deixa o som satisfazer-se com o ambiente vulnerável e, agora, inconsolável, e beber um copo d'água. A música saia pela sala, encostando-se nos móveis, ralando em suas bordas; tentava entrar nos outros quartos, sem sucesso; atravessava o corredor estreito até a cozinha, onde conversava consigo mesma, em sintonia com o êxtase de si mesma; e chegava na cozinha, envolvendo-me, baixinha, delirante, em sussurros baixos e perenes. E eu continuei ouvindo. Mantive-me no deleite, sendo violado, membros, ossos e mente. E eu gostei disso.

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