Não faço ideia do poder que essa música tem sobre mim:
Digo, não consigo explicá-lo. Parece preencher uma parte de vida que eu esqueci, ou ignorei. Um caminho que poderia ter tomado, mas não tomei. Ou um arrependimento de antes, bem antes, perdurando até agora.
Conforme ela toca, ando pelas ruas cinzas, num mundo de preto e branco não muito bem definido, como num desenho monocromático com a iluminação deixada pela metade. Cada passo é um quadro, onde minha silhueta apenas diferencia em qual das pernas esta na frente: Mãos nos bolsos, cabeça baixa, e uma fumaça de cigarro acompanhando-me, como para não permitir que o ambiente e seus habitantes possam enxergar-me.
O ambiente. O mundo. Esse mundo diferente desde muito antes, desde da decisão entre brincar com o caminhão ou a bola. Eu havia decidido a bola. Nesse mundo, decidi o caminhão. E tudo mudou... Nesse mundo, havia decidido subir mais árvores e ouvir melhor. Não no sentido de ouvir mais, mas de ouvir com mais qualidade. Havia escolhido persistir em descobrir-me, e descobrir tudo que fazia, ou tinha vontade de fazer. De guiar a mim mesmo pelos caminhos e, caso um mapa achasse, usá-lo até que deixasse de ser útil. Um mundo onde eu não me perguntaria "Como?" e abaixaria a cabeça, mas perguntaria "Como?" e correria sedento, a procura do novo. Deixaria o novo existir em mim como existe em todo bom eterno aprendiz, em todo aquele cuja boca transborda com o doce, ou por vezes amargo, líquido do aprendizado, assim como um bebê não controla a saliva proveniente de suas glândulas. Deixaria a aventura inflar meus pulmões e encher minhas veias, tão mais cedo quanto o primeiro raiar do sol de minha alma.
Então a música acaba. Por fim, caminho em direção ao fim do desenho, sendo absorvido pelo branco eterno de um canvas ilimitado, ainda por ser pintado. A música acaba, e estou de volta a aonde quer que eu estivesse, deixando o tempo passar.
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