domingo, 13 de junho de 2010

-E que se dane todo resto!!

E assim, bateu a porta, na cara do vácuo que tentava deixar pra trás. Mas à frente desse vácuo, havia o fardo. O fardo que nunca havia carregado. O fardo que já havia deixado lá trás a muito, e que, por mágica, prendeu-se a ele assim como a sua alma, e não jeito maneira. Não há whiskys, cigarros, valadas, risadas. Só o fardo, carregado, pesado, estabanado a desatinar. Mas não, não dava mais. Não havia porque carregar. Nunca havia feito-o...
Então pôs-se a caminhar. Noite fria, de neve, ruas vazias, pessoas no calor de suas casas, confortadas por abraços outrônimos, por risadas autonômas. De sozinho, só havia ele, só havia ele. Desatinada, sua alma, a fatigar de praça em praça...

Ah...

Porque você pode esquecer. Pode fingir que nada aconteceu. Mas sempre estará lá. Feito tatuagem na alma, feito neve cobrindo a rua quando cai. Lembranças. Memórias. Inútil à elas. Horrível, asqueroso, viver sem. E elas aparecem toda hora; até mesmo naquele vácuo não-preenchido dos segundos já vividos, ali haverá uma lembrança. Um memoir.

domingo, 30 de maio de 2010

E então, ele lembrou. Lembrou das coisas que fizeram dele humano, das coisas que fizeram dele ele mesmo... E das coisas que o fizeram ser um pouco deus.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Hm.

Eu só sou um homem mesmo;
Daqueles qualquer que se ver por ai,
folgados de vez em quando, determinados às vezes... Quase sempre.
Que ficam à conversar pelas ruas,
andando despreocupados dos pés à cabeça,
só pensando no jantar que vai estar a mesa
ou num afago para ganhar.

Daqueles de festa, de farra, de bebida, de poesia
que acha que pra farrar só é preciso estar junto,
sem nada falar, quando a companhia agradar.
Daqueles bem humanos.
Idiotas, teimosos, inocentes
Mas que espertos sabem ser, quando bem entender...

domingo, 25 de abril de 2010

Sem nome -

"Deus, porque queres que eu chore
acaso se ela retorne
aquela que causou meu fim?

Deus, para quem queres que eu ore
para aquela que me acolhe...
ou aquela do meu fim??"

Sem nome
Autoria: Onirê de Morais e Diogo Testa

Canção des-sossego

Ando pela rua como quem nada quer
Apenas para que, num dia, eu possa sequer
Fazer ouvir minha prosa

Não, não me vejo ali, tão triste,
num copo vazio a jazir numa mesa
vazia qualquer, sem bossa e sem humor.
Meu samba fez-se mudo;
calou-se de súbito

Como num som surdo, provocado
pelo tombo miúdo do vidro
que deixaram escorregar, num dia
tão tardio...

Ah, se meu samba tocar.
Ah, e, com minha prosa, abraçar...
Ah, se de cada vidro quebrado
num abraço, eu tirar uma flor
é essa flor que vai tirar o inchaço
causado pelo embaraço, da falta do cansaço...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sabe quando dá aquela vontade de qualquer coisa? Pronto. Estou com essa vontade.
Vontade de sair na rua, pedir pela chuva, e ver minha chuva invisível aos olhos de outrem, insensível às peles de outrem, inaudível aos ouvidos de outrem. Tocar, cantar, enfim, fazer. Mas na verdade, sincera, vontade de escrever tenho. Escrever sobre algo que talvez possa ter sido escrito de vários jeitos, mas do meu próprio jeito. Não importa se a manhã ilumina tudo, ou se a noite está lá para acolher ou seus pobres filhos sem lugar, a serem amparados por lábios desconhecidos e copos implorando para ficarem vazios, ou seus filhos já formados, que nela se aventuram com a experiência de um velho navegador. Aquele filho da vida caminha, ou chora. Se caminhar, caminha com força, como se cada passo fosse o seu passo de adeus. E se chora, chora pra matar, pra se satisfazer. Se não fosse pra isso, inútil pra ele seria. Inútil.