sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Eu e The Real Folk Blues - 1

Não faço ideia do poder que essa música tem sobre mim:



Digo, não consigo explicá-lo. Parece  preencher uma parte de vida que eu esqueci, ou ignorei. Um caminho que poderia ter tomado, mas não tomei. Ou um arrependimento de antes, bem antes, perdurando até agora.

Conforme ela toca, ando pelas ruas cinzas, num mundo de preto e branco não muito bem definido, como num desenho monocromático com a iluminação deixada pela metade. Cada passo é um quadro, onde minha silhueta apenas diferencia em qual das pernas esta na frente: Mãos nos bolsos, cabeça baixa, e uma fumaça de cigarro acompanhando-me, como para não permitir que o ambiente e seus habitantes possam enxergar-me.

O ambiente. O mundo. Esse mundo diferente desde muito antes, desde da decisão entre brincar com o caminhão ou a bola. Eu havia decidido a bola. Nesse mundo, decidi o caminhão. E tudo mudou... Nesse mundo, havia decidido subir mais árvores e ouvir melhor. Não no sentido de ouvir mais, mas de ouvir com mais qualidade. Havia escolhido persistir em descobrir-me, e descobrir tudo que fazia, ou tinha vontade de fazer. De guiar a mim mesmo pelos caminhos e, caso um mapa achasse, usá-lo até que deixasse de ser útil. Um mundo onde eu não me perguntaria "Como?" e abaixaria a cabeça, mas perguntaria "Como?" e correria sedento, a procura do novo. Deixaria o novo existir em mim como existe em todo bom eterno aprendiz, em todo aquele cuja boca transborda com o doce, ou por vezes amargo, líquido do aprendizado, assim como um bebê não controla a saliva proveniente de suas glândulas. Deixaria a aventura inflar meus pulmões e encher minhas veias, tão mais cedo quanto o primeiro raiar do sol de minha alma.

Então a música acaba. Por fim, caminho em direção ao fim do desenho, sendo absorvido pelo branco eterno de um canvas ilimitado, ainda por ser pintado. A música acaba, e estou de volta a aonde quer que eu estivesse, deixando o tempo passar.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Então...

Tem um campo. Um campo lindo, extenso, cheio de vida, onde várias plantas podem nascer. Um milagre no mundo, esse lugar. E nele chove. Em alguns campos chovem mais, noutros menos; O importante é que chova, para que as plantas ali continuem muito vivas, fiquem mais que belas, virem um esplendor de cores, um tratamento para todas tristezas. E, nesse campo, nascem coisas inacreditáveis: Uma planta que estimula a felicidade. Uma que faz a criatividade saltar aos olhos, a pele, a cada fio de cabelo. Uma que embeleza o ser, tanto por fora quanto por dentro. Mas todas as plantas desse campo não podem sair dele campo. Elas tem que ficar lá, pois ali, naquela terra mágica, existem coisas que não existem em canto nenhum, e que de lá não podem ser tiradas.

Todas as plantas lá nascem, e lá ficam. Todas, menos uma.

É quando a chuva bate numa semente especial. Uma semente mágica, muito rara, mas que nunca deixa de aparecer por lá. Uma semente que mistura todas as maravilhas contidas em todas as outras plantas desse campo. Uma semente poderosa, linda, e cheia de felicidade.

Mas não é uma semente fácil de florescer. As vezes, na primeira chuva, ela começa a se transformar, a germinar. As vezes, é preciso muita chuva. As vezes, pode chover muito, mas a semente não esta no campo. E as vezes, a semente e a chuva não conseguem ser fortes para fazer brotar a planta maravilhosa gerada por essa semente.

E, as vezes, a chuva e a semente se ligam. A chuva dança pela superfície da semente, até a semente, satisfeita, começar a crescer. A crescer para virar a linda planta que poderá sair do campo, e trazer felicidade, amor, sorrisos e esperança para longe dele.

E é daí que vem os bebês, filha. Daí que vem os bebês.



(Originalmente postado no dia 13/08/2013, no blog Líquidas Palavras)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mauro

Mauro estava andando pela cidade quando aconteceu.

Viu um grupo de pessoas agredindo alguém caído no chão da calçada, mal tendo espaço para não cair no meio fio. Alguns membros do grupo ficavam parados, observando para ver se algum carro de polícia chegava, e essas pessoas mudavam no intervalo de segundos, pois o tique nervoso de suas pernas mostrava a sede de violência que corria por suas veias. Eram 7 pessoas para um rapaz no chão, atordoado, perdido, inicialmente clemente por ajuda, mas agora sua voz rendeu-se ao murros e pontapés, a espera do fim do ar em seus pulmões e da teimosia de viver que, lentamente, expelia-se pelos ferimentos espalhados no seu corpo. Um deles encarou Mauro. Apontou para ele. Avisou-o para ir embora, que aquilo ali nada tinha a ver com ele.

Mauro partiu pra cima do rapaz, agarrou seu dedo, e quebrou-o.

Avançou na direção de mais um, pisou em seu pé com força e começou a espancá-lo na face, com seus punhos fechados exclamando um "aleluia" cada vez que afundavam a face do atacado.

Então os outros perceberam, e Mauro soube que estava encrencado.

Partiram pra cima dele; Ainda conseguiu derrubar mais um, o último que estava de vigia, dando uma botada no seu estômago e empurrando, com uma mão, sua cabeça em direção ao concreto, emitindo um som vazio cheio de vida com o choque. Mauro foi cercado e desviou do primeiro soco. Do segundo. No primeiro chute segurou a perna e girou o cara para longe. Apenas para ser pego por trás, e começar a apanhar. Uma vez. Duas vezes. 4 vezes na face. Quebrar duas costelas. Fraturar o fêmur. E, por fim, mais uma costela quebrar, penetrando em seu abdome como o grito pavoroso destrói o silêncio. Mauro ia cair em seus joelhos, mas suas pernas sequer isso aguentaram e sucumbiram ao peso da violência. Caindo, Mauro levara outra bicuda na face, a face posteriormente encontrada desfigurada com o queixo enterrado fundo em sua patética existência.

Mauro morreu a luz do dia, às 16 horas e 13 minutos de uma quinta-feira, na avenida mais movimentada da cidade.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

9:22 AM

Ele passa as páginas da HQ, pressionando o teclado num ritmo apressado de dois "tecks" por página. Seus olhos captam e capturam apenas o estorvo, o deixado a parte das páginas, para logo mais afundar-se num mergulho insano na mente do escritor, por escolher as palavras daquelas páginas, dos desenhistas, por presentar cada folha com elementos semânticos interligados um ao outro e que ao mesmo tempo possuem identidade própria. E do letrista, o pobre infeliz sarcástico que confere um poder mágico a cada palavra escrita por suas mãos, apenas com conhecimento gráfico e formas. Os olhos interpretam as imagens certas como borradas, como gente perdida sem identidade, como uma pessoa fazendo aquelas perguntas básicas num encontro mas que não decifra a linguagem corporal da companheira, como alguém passando a mão na superfície da água,tocando-a por achar fazer um gesto gentil, quando o pequeno gesto pode fazer uma onda criadora de ressonância, e então todo o lago agitar-se num ritmo auto-destrutivo. Ele para em algumas páginas a esmo que conseguem despertar-lhe mais a atenção, olhando um novo personagem em destaque ou uma reação distinta nas páginas já tão bem conhecidas. No fim, o relógio marca 9:24 AM. Vai para a cozinha fazer um copo de leite, escreve esse texto agoniado por sair de suas mãos, e deixa o tempo espaçar-se antes de realizar a leitura.