sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Diário de bordo. n-ésimo dia acordando como se eu tivesse uma pedra no nariz. Nada passa por ali: ar, oxigênio, paixão, remédios, criatividade, empolgação, delírio. Tudo é bloqueado por uma pedra invisível. Ou talvez o nariz esteja selecionando o que irá passar. Uma seleção bizarra, cujo método seletivo deixa a vida de fora e traz a necrose pra dentro. Sinto a agonia de não respirar, sinto quando acordo e passo uma hora sem querer fazer nada, sinto quando a ideia de fazer passa pela minha mente, pela fina corda-bamba que vai do pensamento ao fazer, e a maioria dessas ideias cai sem sequer alcançar a metade do caminho. O nariz deixa nada passar, enquanto um monte de merda se acumula pelo corpo, literal e metafisicamente. Por o que não presta para fora esta bem difícil, assim como falar o que é preciso falar. É bem difícil.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

I'm just not fine. Not fine, not fine.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

-Eu só quero algo pra passar o tempo. O tempo de uma vida inteira. Nesse tempo quero esquecer de tudo, e manter os piores pensamentos dentro de mim. Os pensamentos mais obscuros e culposos. Não quero machucar ninguém. Não quero parecer machucar alguém. Desde novo algo desconhecido está se alimentando de mim, e está:

Crescendo;

Apontando;

Culpando;

Afastando;

Destronando;

Decaindo;

Incendiando campos; Um incêndio negro fora de controle, fora de si, ansioso, desgostoso de suas origens, desgostoso de ser, desgraçando o próprio inferno que criou pra si mesmo;

Por existir;

Por calar;

Por seguir;

Seguir; Seguir; Seguiu.



-Escrito há mais tempo ainda.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ressonâncias da infância - 1

Pessoas perfeitas não tentam. Elas conseguem. Sem falhas. Sem tentativas. Apenas o sucesso. Cru, e desumano.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Eu e The Real Folk Blues - 1

Não faço ideia do poder que essa música tem sobre mim:



Digo, não consigo explicá-lo. Parece  preencher uma parte de vida que eu esqueci, ou ignorei. Um caminho que poderia ter tomado, mas não tomei. Ou um arrependimento de antes, bem antes, perdurando até agora.

Conforme ela toca, ando pelas ruas cinzas, num mundo de preto e branco não muito bem definido, como num desenho monocromático com a iluminação deixada pela metade. Cada passo é um quadro, onde minha silhueta apenas diferencia em qual das pernas esta na frente: Mãos nos bolsos, cabeça baixa, e uma fumaça de cigarro acompanhando-me, como para não permitir que o ambiente e seus habitantes possam enxergar-me.

O ambiente. O mundo. Esse mundo diferente desde muito antes, desde da decisão entre brincar com o caminhão ou a bola. Eu havia decidido a bola. Nesse mundo, decidi o caminhão. E tudo mudou... Nesse mundo, havia decidido subir mais árvores e ouvir melhor. Não no sentido de ouvir mais, mas de ouvir com mais qualidade. Havia escolhido persistir em descobrir-me, e descobrir tudo que fazia, ou tinha vontade de fazer. De guiar a mim mesmo pelos caminhos e, caso um mapa achasse, usá-lo até que deixasse de ser útil. Um mundo onde eu não me perguntaria "Como?" e abaixaria a cabeça, mas perguntaria "Como?" e correria sedento, a procura do novo. Deixaria o novo existir em mim como existe em todo bom eterno aprendiz, em todo aquele cuja boca transborda com o doce, ou por vezes amargo, líquido do aprendizado, assim como um bebê não controla a saliva proveniente de suas glândulas. Deixaria a aventura inflar meus pulmões e encher minhas veias, tão mais cedo quanto o primeiro raiar do sol de minha alma.

Então a música acaba. Por fim, caminho em direção ao fim do desenho, sendo absorvido pelo branco eterno de um canvas ilimitado, ainda por ser pintado. A música acaba, e estou de volta a aonde quer que eu estivesse, deixando o tempo passar.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Então...

Tem um campo. Um campo lindo, extenso, cheio de vida, onde várias plantas podem nascer. Um milagre no mundo, esse lugar. E nele chove. Em alguns campos chovem mais, noutros menos; O importante é que chova, para que as plantas ali continuem muito vivas, fiquem mais que belas, virem um esplendor de cores, um tratamento para todas tristezas. E, nesse campo, nascem coisas inacreditáveis: Uma planta que estimula a felicidade. Uma que faz a criatividade saltar aos olhos, a pele, a cada fio de cabelo. Uma que embeleza o ser, tanto por fora quanto por dentro. Mas todas as plantas desse campo não podem sair dele campo. Elas tem que ficar lá, pois ali, naquela terra mágica, existem coisas que não existem em canto nenhum, e que de lá não podem ser tiradas.

Todas as plantas lá nascem, e lá ficam. Todas, menos uma.

É quando a chuva bate numa semente especial. Uma semente mágica, muito rara, mas que nunca deixa de aparecer por lá. Uma semente que mistura todas as maravilhas contidas em todas as outras plantas desse campo. Uma semente poderosa, linda, e cheia de felicidade.

Mas não é uma semente fácil de florescer. As vezes, na primeira chuva, ela começa a se transformar, a germinar. As vezes, é preciso muita chuva. As vezes, pode chover muito, mas a semente não esta no campo. E as vezes, a semente e a chuva não conseguem ser fortes para fazer brotar a planta maravilhosa gerada por essa semente.

E, as vezes, a chuva e a semente se ligam. A chuva dança pela superfície da semente, até a semente, satisfeita, começar a crescer. A crescer para virar a linda planta que poderá sair do campo, e trazer felicidade, amor, sorrisos e esperança para longe dele.

E é daí que vem os bebês, filha. Daí que vem os bebês.



(Originalmente postado no dia 13/08/2013, no blog Líquidas Palavras)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mauro

Mauro estava andando pela cidade quando aconteceu.

Viu um grupo de pessoas agredindo alguém caído no chão da calçada, mal tendo espaço para não cair no meio fio. Alguns membros do grupo ficavam parados, observando para ver se algum carro de polícia chegava, e essas pessoas mudavam no intervalo de segundos, pois o tique nervoso de suas pernas mostrava a sede de violência que corria por suas veias. Eram 7 pessoas para um rapaz no chão, atordoado, perdido, inicialmente clemente por ajuda, mas agora sua voz rendeu-se ao murros e pontapés, a espera do fim do ar em seus pulmões e da teimosia de viver que, lentamente, expelia-se pelos ferimentos espalhados no seu corpo. Um deles encarou Mauro. Apontou para ele. Avisou-o para ir embora, que aquilo ali nada tinha a ver com ele.

Mauro partiu pra cima do rapaz, agarrou seu dedo, e quebrou-o.

Avançou na direção de mais um, pisou em seu pé com força e começou a espancá-lo na face, com seus punhos fechados exclamando um "aleluia" cada vez que afundavam a face do atacado.

Então os outros perceberam, e Mauro soube que estava encrencado.

Partiram pra cima dele; Ainda conseguiu derrubar mais um, o último que estava de vigia, dando uma botada no seu estômago e empurrando, com uma mão, sua cabeça em direção ao concreto, emitindo um som vazio cheio de vida com o choque. Mauro foi cercado e desviou do primeiro soco. Do segundo. No primeiro chute segurou a perna e girou o cara para longe. Apenas para ser pego por trás, e começar a apanhar. Uma vez. Duas vezes. 4 vezes na face. Quebrar duas costelas. Fraturar o fêmur. E, por fim, mais uma costela quebrar, penetrando em seu abdome como o grito pavoroso destrói o silêncio. Mauro ia cair em seus joelhos, mas suas pernas sequer isso aguentaram e sucumbiram ao peso da violência. Caindo, Mauro levara outra bicuda na face, a face posteriormente encontrada desfigurada com o queixo enterrado fundo em sua patética existência.

Mauro morreu a luz do dia, às 16 horas e 13 minutos de uma quinta-feira, na avenida mais movimentada da cidade.