Disseram-me para crescer e virar um adulto. Disseram-me para ouvir a tv, os outros, não pensar, relaxar e gozar. Beber sem ver o dia raiar, andar sem ver os rios correrem, as nuvens passarem, as árvores balançarem. Sem notar as lindas andando. Ou esperando. Ou lindando. Sem conversar com o velho violeiro sentado, cantando um sentimento antigo válido até hoje, tentando viver num tempo que não é seu, que é atroz e desgarrado, cruel. Disseram-me que ter dinheiro é certo e ser diferente é errado. Que sentir demais é errado. Recusaram-se a me escutar, e só falaram. Taparam minha boca com suas palavras sujas, com suas ofensas as vezes imundas, mais vezes inocentes. Que eu desenhava mal. Que eu não sabia jogar bola. Que fariam algo, que nunca fizeram. O que fizeram? Forçaram ao máximo uma inocência tola? Por que fui tão tolo? Pra que deixei aquelas palavras me atingirem? Como aprender com as palavras, sem ferir-se por elas, sem morrer de vergonha por algo? Por que tanto me envergonhar? Por que sempre achar que ninguém vai me escutar, me ajudar, e fingir sempre estar resolvendo tudo? Eu não quero me fingir de forte. Nem sei mais se quero ser forte. Nem sei se quero um abraço, um colo, ou o pulso cortado. A sanidade, a insanidade, a corda no teto, a cadeira derrubada.
Não sei pra que viver. Não sei pra que estudar. Não sei pra que arrumar um emprego. Estou morto desde cedo. E sei disso. Sei.
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