segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mauro

Mauro estava andando pela cidade quando aconteceu.

Viu um grupo de pessoas agredindo alguém caído no chão da calçada, mal tendo espaço para não cair no meio fio. Alguns membros do grupo ficavam parados, observando para ver se algum carro de polícia chegava, e essas pessoas mudavam no intervalo de segundos, pois o tique nervoso de suas pernas mostrava a sede de violência que corria por suas veias. Eram 7 pessoas para um rapaz no chão, atordoado, perdido, inicialmente clemente por ajuda, mas agora sua voz rendeu-se ao murros e pontapés, a espera do fim do ar em seus pulmões e da teimosia de viver que, lentamente, expelia-se pelos ferimentos espalhados no seu corpo. Um deles encarou Mauro. Apontou para ele. Avisou-o para ir embora, que aquilo ali nada tinha a ver com ele.

Mauro partiu pra cima do rapaz, agarrou seu dedo, e quebrou-o.

Avançou na direção de mais um, pisou em seu pé com força e começou a espancá-lo na face, com seus punhos fechados exclamando um "aleluia" cada vez que afundavam a face do atacado.

Então os outros perceberam, e Mauro soube que estava encrencado.

Partiram pra cima dele; Ainda conseguiu derrubar mais um, o último que estava de vigia, dando uma botada no seu estômago e empurrando, com uma mão, sua cabeça em direção ao concreto, emitindo um som vazio cheio de vida com o choque. Mauro foi cercado e desviou do primeiro soco. Do segundo. No primeiro chute segurou a perna e girou o cara para longe. Apenas para ser pego por trás, e começar a apanhar. Uma vez. Duas vezes. 4 vezes na face. Quebrar duas costelas. Fraturar o fêmur. E, por fim, mais uma costela quebrar, penetrando em seu abdome como o grito pavoroso destrói o silêncio. Mauro ia cair em seus joelhos, mas suas pernas sequer isso aguentaram e sucumbiram ao peso da violência. Caindo, Mauro levara outra bicuda na face, a face posteriormente encontrada desfigurada com o queixo enterrado fundo em sua patética existência.

Mauro morreu a luz do dia, às 16 horas e 13 minutos de uma quinta-feira, na avenida mais movimentada da cidade.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

9:22 AM

Ele passa as páginas da HQ, pressionando o teclado num ritmo apressado de dois "tecks" por página. Seus olhos captam e capturam apenas o estorvo, o deixado a parte das páginas, para logo mais afundar-se num mergulho insano na mente do escritor, por escolher as palavras daquelas páginas, dos desenhistas, por presentar cada folha com elementos semânticos interligados um ao outro e que ao mesmo tempo possuem identidade própria. E do letrista, o pobre infeliz sarcástico que confere um poder mágico a cada palavra escrita por suas mãos, apenas com conhecimento gráfico e formas. Os olhos interpretam as imagens certas como borradas, como gente perdida sem identidade, como uma pessoa fazendo aquelas perguntas básicas num encontro mas que não decifra a linguagem corporal da companheira, como alguém passando a mão na superfície da água,tocando-a por achar fazer um gesto gentil, quando o pequeno gesto pode fazer uma onda criadora de ressonância, e então todo o lago agitar-se num ritmo auto-destrutivo. Ele para em algumas páginas a esmo que conseguem despertar-lhe mais a atenção, olhando um novo personagem em destaque ou uma reação distinta nas páginas já tão bem conhecidas. No fim, o relógio marca 9:24 AM. Vai para a cozinha fazer um copo de leite, escreve esse texto agoniado por sair de suas mãos, e deixa o tempo espaçar-se antes de realizar a leitura.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A música voraz.

A música queria sair, empurrando uma pressão aos meus ouvidos, impossível de manter-se presa e distraída pelos fones de ouvido. Os pensamentos pareciam um engarrafamento tardio regado a doses de lsd e absinto numa avenida de postes seculares e piscantes, caóticos pronunciando seu encanto para o mundo e além. Ossos e membros aparentavam estar sendo violados pelos apelos das notas, dos tempos, do ritmo desigual do saxofone estranhamente libidinoso da obra sendo ouvida. Tirei o conector do fone de ouvido, murmurando um "bom trabalho" para o pobre coitado, já que segurar aquela canção parecia um trabalho muito pior que árduo, chegando a ser lacerante: fones não possuem fluídos dentro de si mas, caso possuíssem, provavelmente a bancada, o chão e a parede branca manchada pelos infiltrações de água no meu quarto estariam todos tingidos anarquicamente por ele. O som espalhou-se pelo quarto como um monstro sedento, como uma existência voraz, com fome de silêncio e espaço. Sai do quarto para deixa o som satisfazer-se com o ambiente vulnerável e, agora, inconsolável, e beber um copo d'água. A música saia pela sala, encostando-se nos móveis, ralando em suas bordas; tentava entrar nos outros quartos, sem sucesso; atravessava o corredor estreito até a cozinha, onde conversava consigo mesma, em sintonia com o êxtase de si mesma; e chegava na cozinha, envolvendo-me, baixinha, delirante, em sussurros baixos e perenes. E eu continuei ouvindo. Mantive-me no deleite, sendo violado, membros, ossos e mente. E eu gostei disso.

domingo, 21 de julho de 2013

Dust: An Elysian Tail

Volte para sua infância. Lembre-se das histórias de heróis que encheram e tocaram sua mente com demonstrações de coragem, bons atos e auto-sacrifício. Lembre-se das sensações passadas a você por elas. Do quanto isso lhe encantava.

Lembrou? Ótimo. Dust: An Elysian Tail tenta fazer isso com uma narrativa dividida em cinco capítulos, ambientada num mundo povoado com seres antropomórficos, sobre Dust, o personagem principal que, mesmo sem memória, esta sempre disposto a ajudar as pessoas caso elas peçam. Acompanhado de Fidget, uma simpática e engraçadíssima Nimbat (Uma espécie de felino com asas), e sua espada senciente The Blade of Ahrah que além de dar ótimos conselhos a Dust durante sua jornada, possui conhecimentos ocultos que podem ajudá-lo a recuperar sua memória. O jogo passa a narrativa acompanhada por um gameplay 2D side-scrolling com elementos de RPG, focado em combate, exploração e plataforma. O combate possui um sistema de combos rápido, preciso e fluído onde o jogo começa mostrando um conjunto de ferramentas bastante divertidas de brincar, até ensinar-lhe a habilidade dust storm que fortalece as magias de Fidget, transformando o jogo num show de magia e efeitos de luz acumuladores de combos, os quais dão experiência extra a Dust para que ele aumente seus atributos. Outro elemento no jogo é o sistema de crafting, que lhe permite construir equipamentos e acessórios não encontrados a venda, para tornar Dust mais forte e conferir-lhe outros bônus, como mais dinheiro ou regeneração de vida.

As músicas do jogo fazem um ótimo trabalho para fortalecer a sensação passada pelas diversas locações do jogo (incluindo fazer com que você não aguente mais estar em um local onde pessoas não se aventuram a passar), causando um bela sensação de estar presente no mundo. Isso, aliado com o fato dos cenários serem lindos, vai fazer com que você passe algum tempo parado apenas olhando as locações. Assim, não se surpreenda caso você escute a si mesmo assoviando algumas partes da trilha sonora do jogo.

Além disso, o jogo possui uma história de desenvolvimento a parte. Ele foi idealizado por um Dean Dodril, um artista e animador auto-didata que, querendo fazer um jogo, tornou-se também auto-didata tanto em programação quanto em game design, fazendo com que ganhasse um prêmio em 2009 dado pela Microsoft. A partir dai o jogo passou três anos em desenvolvimento, com Dodril achando pessoas para fazer a trilha sonora, as dublagens e algumas partes da história. Enfim, em 2012, ele foi lançado para o Xbox 360 na live arcade e em 2013 lançado ganhou uma versão para PC, sendo lançado no Steam.

Porém...

Na metade do jogo ele perde um pouco da fluidez. A área visitada no capítulo três faz tão bem o seu trabalho de passar a sensação dela ao jogador, que o jogador simplesmente cria um repúdio por ela: O design dessa área que, ao contrário das outras, é muito repetitiva, aliado aos inimigos dela, sua música tema e até mesmo a quest passa nessa área causam uma irritabilidade que simplesmente destrói a sensação de fluxo do jogo. Após essa área, o jogo começa a criar seu climax no capítulo quatro, onde ocorrem diversas revelações do enredo, levantando vários questionamentos sobre a essência do ser e da consciência. E, no último capítulo, nada de excepcional ocorre. Você realiza algumas quests, atravessa a área para cehgar ao último chefe, e a luta ocorre sem nenhuma sensação de climax.

O problema do final do jogo é simplesmente não ter feito um esforço para desenvolver o seu vilão. Nada é mostrado para fazer com que o jogador queira derrotá-lo. Ele sequer aparece interagindo com você até a luta contra ele. É simplesmente chegar lá tendo como única motivação de derrotá-lo terminar o jogo e ver eu final, mesmo sabendo que a guerra criada por esse vilão é tola apenas pelo fato de existir. Aliás, a razão guerra ocorrer sequer é explicada durante o jogo, tornando o seu suposto climax mais raso ainda.

Dust: An Elysyian Tail é um ótimo exemplo de jogo onde a viagem nele vale muito mais a pena do que a chegada ao destino. Os momentos mais emocionantes ocorrem em sua primeira metade, assim como a apresentação dos personagens com quem o jogador mais cria empatia, já que as áreas mostradas após isso são locais abandonados. É um novo vento para os jogos de ação 2D, que faz um ótimo trabalho representando esse estilo, mesmo com o final da jornada sendo nada em comparação ao resto da jornada.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Arrumação

Amanhoje eu e minha família nos mudamos. Mudança meio que repentina, com os contratos resolvidos rapidamente, graças a nomes conhecidos. E hoje eu abri meu armário cheio de coisas. Tudo que eu tenho, fisicamente, esta guardado lá. Coisas da casa passada, coisas de duas casas passadas, até de uma vida passada. Conforme eu ia esvaziando o armário, ia preenchendo o chão de coisas antigas, e a mente de memórias: Aqueles mangas que eu lia na varanda, alguns em especial em que eu ri, outros em que eu chorei. Os livros antigos, alguns lidos a contra-gosto, mas que logo tornarão-se amados para mim ou, pelo menos, experiências encantadoras. Lembrei das partidas de dominó a tarde, das correrias no corredor, nas ruas, das risadas escalafobéticas. Dos dias em que eu dizia que eram os melhores da vida.

Então, uma casa depois, lembrei da primeira garota. Do primeiro show. Da primeira cerveja. Do primeiro choque causado por um jogo, da primeira vez que voltei de ônibus e fiz alguma loucura num ônibus, da amiga que mostrou-me o mundo, e a ela e ao mundo sou grato.

E de volta ao armário. Vazio. Desmemorias, apenas, o total inverso do chão, repleto de paixão, fogo, sonho, e atitude. Um eu que já foi. Um eu que morreu. Descrente sou eu, por agora, e precisei olhá-lo de novo. No vazio, para além dele, havia algo. Estiquei a mão para alcançá-lo e, quando o ouvido ousou destruir o vazio pacato, ouviu um sussurro:
"Sou eu. Adeus, e boa sorte".

Adeus.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O barulho nostálgico da geladeira trazia a tona a noite em que haviam três pessoas sentadas na cozinha, abraçadas pelas calmas trevas noturnas daquela noite. Entorpecidos, haviam passado a madrugada anterior àquela madrugada, da mesma noite, na rua, bebericando copos alheios, e amando garrafas compradas. Divagando prosas nos ouvidos de outrem, para um momento mínimo como amantes, ou talvez uma eternidade que encontraria seu fim em algum outro dia.

Bom, não conseguiram nada disso, e foram dormir.

Chegando lá, ao invés de organizarem as camas para descansarem na profundidade criada das benditas abençoadas, decidiram comer e jogar conversa fora na cozinha. Alguns biscoitos, um café recém feito, xícaras meio cheias faziam companhia as bitucas e cinzas de cigarros que dois deles tragavam. Todos comiam e tagarelavam, como se a cada biscoito ingerido uma nova conversa precisasse sair para dar espaço dentro do corpo. Até que o barulho da geladeira os deu a ideia: Apagaram as luzes e, mais que satisfeitos, continuaram a conversar, deixando as palavras serem guiadas pela noite que decidira amamentá-los com seu sumo polêmico. Um pouco mais de tempo, e calaram-se. A ideia era que apenas a geladeira poderia pronunciar-se, e era sempre com o mesmo tom. O tom vibrante, oscilatório e perdido da geladeira. Como alguém preste a regurgitar, hesitando mais rápido que o saudável e o corpo aguentaria.
Até a tossida. Após o que pareceram horas, uma tossida seca, desesperada mas brincalhona inundou o aposento e os ouvidos dos três com vida, caos e desordem. Um deles engasgou-se em sabe-se-lá-o-que, e então, cansados, cedem. Vão dormir.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Miserável

Senti-me miserável hoje, e ei, está tudo bem.
Senti-me miserável ontem e ei, está tudo bem.
Senti-me miserável durante três dias, e isso é ok.
Senti-me miserável durante quatro dias, e isso também é ok.
Senti-me miserável durante uma semana, e está tudo bem comigo.
Senti-me miserável durante um mês, e nada fora do comum aconteceu.
Senti-me miserável durante três meses. Não morri, nem ninguém me matou. De novo.
Senti-me miserável durante seis meses. A miséria esta se tornando aceitável, deglutivel.
Senti-me miserável por um ano. Já sou miserável. Sou um novo. Sou eu.

Esse é o eu que eu tenho, e é esse o eu que vou usar.